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Comentário infeliz: homem diz que investir em mulheres que venceram o câncer e sofrem violência é dinheiro jogado fora



Comentário infeliz: homem diz que investir em mulheres que venceram o câncer e sofrem violência é dinheiro jogado fora

Comentário foi feito em postagem sobre ação voltada a mulheres de Cachoeirinha que venceram o câncer

Por André Guterres - Info do Vale e Cachoeirinha Notícias 24 Horas

Imagine sua mãe, filha, esposa, irmã ou uma amiga conseguir vencer um câncer depois de meses ou até anos de tratamento. Imagine a luta para superar a doença, as marcas deixadas pelo tratamento e, em alguns casos, até a perda de parte do corpo. Você acredita que essas mulheres não merecem ser acolhidas e valorizadas pelo poder público?

Agora imagine descobrir que uma mulher próxima a você está sofrendo violência doméstica e precisa de proteção, orientação, acolhimento e apoio para conseguir romper com esse ciclo. Você acredita que também não seria papel do poder público criar políticas e ações para ajudá-la?

Em ambos os casos, você consideraria esse investimento "dinheiro jogado fora"?

Foi justamente essa expressão que chamou a atenção após uma publicação do Cachoeirinha Notícias 24 Horas sobre uma ação de convivência promovida pela Secretaria Municipal da Mulher de Cachoeirinha com o grupo "As Vitoriosas", formado por mulheres que enfrentaram e venceram o câncer.

A atividade integra ações de convivência e acolhimento desenvolvidas pelo município. No entanto, entre os comentários da publicação, um homem que se identifica como apóstolo de uma igreja evangélica classificou a iniciativa como "dinheiro jogado fora".

A manifestação infeliz merece uma reflexão que vai além da própria postagem.


Políticas públicas também significam acolhimento e dignidade


É importante lembrar que políticas públicas não se resumem à construção de obras ou à prestação de serviços considerados essenciais. Ações de convivência, acolhimento e fortalecimento de vínculos também fazem parte da atuação do poder público, especialmente quando envolvem pessoas que enfrentaram situações de vulnerabilidade.

No caso das mulheres que passaram pelo câncer, atividades de convivência podem representar um espaço de troca de experiências, fortalecimento emocional e reconstrução de vínculos após um período marcado por tratamentos, limitações e incertezas.

O mesmo vale para mulheres vítimas de violência. Oferecer proteção, orientação e acolhimento não significa desperdiçar recursos públicos, mas criar mecanismos para que essas mulheres tenham condições de buscar ajuda e reconstruir suas vidas.

É perfeitamente legítimo que qualquer cidadão questione a aplicação de recursos públicos e cobre transparência sobre os gastos. O debate sobre prioridades do orçamento municipal faz parte da democracia. Mas classificar uma ação voltada ao acolhimento de mulheres que enfrentaram o câncer como "dinheiro jogado fora" é uma afirmação que merece, no mínimo, ser questionada.


Uma fala individual não representa uma religião inteira


Por conhecer pastores e pastoras de diferentes denominações evangélicas, inclusive pessoas que desenvolvem trabalhos sociais e atuam diariamente no combate à violência contra a mulher, é importante fazer uma distinção.

O comentário de uma pessoa não pode ser tratado como representação de toda uma religião ou de todos os cristãos. Existem inúmeras igrejas e lideranças religiosas que desenvolvem trabalhos de assistência social, acolhimento e apoio a famílias em situação de vulnerabilidade.

Por isso, a crítica aqui é direcionada à fala publicada, e não à fé ou à religião do autor do comentário.

Fica, entretanto, uma pergunta: será que ele repetiria que aquele trabalho é "dinheiro jogado fora" diante das próprias mulheres que participaram da atividade?

Talvez fosse importante ouvir delas o que aquele momento representa.

Porque, para quem passou por um câncer, enfrentou um tratamento difícil e conseguiu chegar ao outro lado da doença, talvez um encontro, uma conversa, um café ou simplesmente a oportunidade de estar ao lado de outras mulheres que viveram experiências semelhantes tenha um valor que não cabe em uma planilha orçamentária.

E para uma mulher que sofre violência, ser acolhida pode significar o primeiro passo para pedir ajuda.

O poder público deve, sim, ser fiscalizado. Recursos públicos precisam ser utilizados com responsabilidade, transparência e critérios. Mas também é preciso lembrar que investir em pessoas, especialmente naquelas que enfrentaram situações de vulnerabilidade, é uma das razões pelas quais políticas públicas existem.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja quanto custa uma ação de convivência.

Talvez seja quanto custa para uma sociedade deixar essas mulheres sozinhas.

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