Antes ridicularizada pela esquerda, camisa da Seleção vira estratégia eleitoral de Lula para buscar votos da direita
Por André Guterres - Info do Vale
Durante anos, brasileiros identificados com a direita e parte do centro político que vestiam a camisa da Seleção Brasileira ou ostentavam a bandeira do Brasil foram alvo de ironias, deboches e críticas de setores da esquerda. Em diferentes debates nas redes sociais, esses cidadãos foram chamados de “gado” e “fascistas” por associarem sua imagem a símbolos nacionais que ganharam forte identificação com o bolsonarismo. Agora, em um movimento que expõe as contradições da disputa política e a busca de votos a todo custo, o deputado federal André Janones (Rede-MG) convocou militantes e apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a vestirem verde e amarelo e publicarem fotos fazendo o gesto da letra “L”.
A mobilização iniciou neste sábado (17) e foi organizada pelo canal de WhatsApp “Exército do Lula”, utilizado para coordenar ações digitais em apoio à reeleição do presidente. Na sexta-feira (16), Janones orientou os participantes a publicarem fotos simultaneamente, às 9h, usando roupas nas cores da bandeira brasileira e fazendo o gesto associado ao petista.
“Você vai postar no seu feed, no seu story, no seu Instagram, uma foto de verde e amarelo, só que fazendo o L”, determinou o deputado.
A ordem revela uma estratégia política que vai além de uma simples escolha de vestuário. Ao incentivar seus apoiadores a adotarem símbolos que, durante anos, foram associados por parte da esquerda ao bolsonarismo, o grupo de Lula tenta disputar uma identidade nacional que se tornou um dos campos de batalha da polarização política brasileira. E o resultado já está aparecendo, diversos militantes de esquerda já começam a publicar fotos usando a camiseta da seleção ou a bandeira do Brasil.
De símbolo da direita a ferramenta eleitoral da esquerda
A contradição é difícil de ignorar. Durante os últimos anos, a camisa da Seleção Brasileira e a bandeira nacional estiveram presentes em manifestações de direita e foram incorporadas à identidade visual de apoiadores de Jair Bolsonaro. Em resposta, setores da esquerda passaram a rejeitar ou ridicularizar o uso desses símbolos por adversários políticos, contribuindo para que as cores verde e amarela fossem tratadas, em determinados ambientes, como marcas de um posicionamento ideológico.
Agora, diante da disputa pela continuidade do governo e da necessidade de ampliar o eleitorado, a orientação de Janones é justamente recuperar esses símbolos. A iniciativa busca alcançar brasileiros que não se identificam com o PT e que historicamente votam em candidatos da direita ou do centro.
O movimento também levanta uma questão sobre a coerência do discurso político: se vestir a camisa da Seleção e exibir a bandeira do Brasil nunca deveria ser motivo para chamar alguém de “gado” ou “fascista”, por que tantos brasileiros foram submetidos a esse tipo de julgamento ideológico? A bandeira pertence ao país, não a um partido, e a camisa da Seleção não deveria funcionar como teste de alinhamento político.
O próprio Lula aderiu à mobilização e publicou uma fotografia vestindo a camisa da Seleção Brasileira, acompanhada de um adesivo com a frase “O Brasil é dos brasileiros”. Na legenda, escreveu: “Bora, Brasil!”.
Janones, por sua vez, justificou a iniciativa afirmando: “Nós conquistamos as ruas de novo, conquistamos as redes sociais, agora nós vamos retomar os nossos símbolos”.
A declaração resume a disputa: mais do que uma mudança de figurino, a campanha tenta reposicionar a imagem do governo e de seus apoiadores diante de eleitores que não necessariamente compartilham das ideias do PT.
Resta saber se a estratégia será capaz de convencer quem está fora da base petista ou se será vista apenas como uma tentativa eleitoral de se apropriar de símbolos que, em uma democracia, deveriam pertencer a todos os brasileiros, independentemente de partido ou ideologia.
Crédito da foto: Ricardo Stuckert.

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