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Doação de órgãos: uma conversa pode ser a peça que falta







Doação de órgãos: uma conversa pode ser a peça que falta


Durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos, a Santa Casa de Porto Alegre apresenta a campanha "Uma conversa pode ser a peça que falta". A iniciativa chama a atenção para uma atitude simples, mas fundamental: manifestar o desejo de ser doador e, principalmente, compartilhar essa decisão com a família.

Atualmente, cerca de 3 mil pessoas aguardam um transplante no Rio Grande do Sul e mais de 87 mil no Brasil, segundo o Painel de Dados do Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, um único doador pode salvar até oito vidas. No país, porém, após a confirmação da morte encefálica, cabe aos familiares autorizar a retirada dos órgãos. Em 2025, 45% das famílias brasileiras recusaram esse consentimento, conforme o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Para o diretor médico do Centro de Transplantes da Santa Casa, José de Jesus Camargo, manifestar esse desejo pode transformar a forma como os familiares enfrentam a decisão. "Quando alguém, ainda em vida e com saúde, comunica o desejo de ser doador, no momento da morte, a família fará o possível para cumprir essa última vontade. Já testemunhei o alívio quando essa promessa pôde ser cumprida", afirma.

Essa realidade ganhou um significado ainda mais concreto para Valdeli Cecilio dos Santos, de 63 anos, que recebeu um transplante pulmonar bilateral em decorrência da evolução de uma fibrose pulmonar. "Cheguei a um momento em que já não conseguia fazer sozinho coisas simples da minha rotina. Depois do transplante, pude retomar a minha vida e passei a compreender, de uma forma que nunca havia imaginado, o que a doação representa para quem está esperando", relata.

Para a esposa de Valdeli, Neuza dos Santos, viver essa experiência de perto trouxe uma nova percepção sobre a importância de falar sobre doação dentro de casa. "Não basta pensar em ser doador ou deixar essa vontade escrita. É preciso conversar com a família e dizer claramente: 'eu quero doar', porque é ela que precisará conhecer e respeitar essa decisão", afirma. "Nós nunca imaginamos que um dia dependeríamos de uma doação. É uma necessidade que pode chegar à vida de qualquer pessoa."



Centro de Transplantes da Santa Casa


Referência internacional na área, o Hospital Dom Vicente Scherer, da Santa Casa de Porto Alegre, concentra cerca de 60% dos transplantes de órgãos realizados no Rio Grande do Sul. Entre janeiro e julho de 2026, a instituição realizou 261 transplantes de órgãos, incluindo pulmão, rim, coração e fígado, além de 164 procedimentos envolvendo córneas, medula óssea e tecidos.

Mesmo com esse volume, a instituição tem capacidade para realizar cerca de 200 transplantes a mais por ano, caso houvesse maior disponibilidade de órgãos. "A ausência de doadores é o maior limitante para a expansão dos programas de transplante. Esses procedimentos significariam exatamente o número de pessoas que deixariam de morrer a cada ano", destaca Camargo.

Para quem viveu a espera por um transplante, a falta de órgãos disponíveis deixa de ser apenas um dado. "O transplante representa a felicidade de poder estar com meus filhos, irmãos e amigos. Minha gratidão é eterna à família que me permitiu ter uma nova vida", afirma Valdeli.


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